segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Memorial imortaliza Itamar


Espaço em Juiz de Fora que será apresentado hoje contará parte da história da República

Em 1992, o então presidente Itamar Franco, recém empossado após o impeachment de seu antecessor, Fernando Collor, procurava um modo de deixar sua marca no governo. Durante uma visita ao Salão do Automóvel, em São Paulo, ficou espantado com o preço dos carros populares. Surgia ali a ideia de uma parceria com a fabricante Volkswagen para retomar a produção do Fusca no Brasil, que fora interrompida em 1986.
O ex-presidente conseguiu sua marca. O modelo de carro acabou conhecido como Fusca Itamar. No dia de relançamento da fábrica, ele circulou num Fusca feito especialmente para a ocasião, do tipo conversível. Ele mesmo adquiriu o modelo, que ficou muito tempo parado na garagem do prédio em que Itamar morou em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira.
Hoje, essa relíquia estará exposta no Memorial da República Itamar Franco, espaço que será inaugurado, em Juiz de Fora, às 20h para guardar o acervo do ex-presidente, que estava no instituto que levava seu nome, na mesma cidade.
“Os maiores legados do Itamar Franco foram a implantação do Plano Real, o estímulo à fabricação do carro popular que tem seu ícone na volta da fabricação do Fusca e programas nacionais de atenção integral à criança e ao adolescente, como o Pronaica”, destaca o Coordenador de Implantação do Memorial, José Alberto Pinho Neves.
Curiosidades. Além do famoso e cobiçado Fusca, que vários já tentaram em vão comprar, o local, que foi construído especialmente para abrigar o acervo, vai exibir mais de 300 mil cartas recebidas pelo ex-presidente.
Entre missivas de autoridades de outros países e decisões administrativas, estão correspondências de populares que, como de praxe, faziam pedidos ao presidente da República.
“É uma variedade incrível de assuntos. Tem muita carta de criança, lindas. E tem cartas em que as pessoas pedem coisas. Tem uma que o cara queria uma casa, mas se não desse podia ser uma geladeira ou um carro”, conta, entre risadas, Neusa Mitterhoff, secretária que auxiliou Itamar durante 40 anos. Ela afirma que houve até quem se proclamasse, nos recados, como inventor do Plano Real.
Além dos bilhetes e objetos pessoais, há no Memorial itens como óculos e medalhas de mérito. Há ainda alguns móveis que foram usados por Itamar. Também foi feito para a exposição um gaveteiro com mais de 80 gavetas. Em cada uma delas está parte da história do mineiro, com fotos, objetos e reportagens.
Nascido em 1930, Itamar morreu aos 81 anos, em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC), em julho de 2011.


Minientrevista - Ivanir Yazbeck, 
Biógrafo de Itamar Franco

Itamar Franco ficou conhecido com um homem avesso aos holofotes. Há algum episódio que mostre isso?

Em dezembro de 1994, Roberto Marinho fez 90 anos e deu uma grande festa no Rio de Janeiro. No dia anterior, um dos assessores do Itamar perguntou a ele: “então, Itamar, amanhã estamos no Rio, certo?” E ele respondeu que não. Eles ficaram espantados. “Mas Itamar, amanhã, os 90 anos do dr. Roberto Marinho, vai ter uma festa fantástica”. E o Itamar: “mas eu não vou não, já marquei um cineminha com a June (Drummond, sua namorada à época), depois vamos comer uma pizza. Vocês vão e me representam”. Nessa festa estiveram as maiores figuras do cenário político e social, menos o presidente da República, que preferia comer pizza e ir ao cinema com a namorada.

Ele teve várias namoradas e chegou a se complicar por causa de uma foto. Como foi isso?
(No Carnaval de 1994, circulou uma foto na qual o ex-presidente aparecia ao lado da modelo Lílian Ramos sem calcinha).

Sim. O que aconteceu foi que, durante o desfile de Carnaval, ele viu uma passista e comentou que era uma moça muito bonita. E um assessor dele, para querer ser gentil, buscou a moça para ir até o camarote para apresentá-la ao Itamar. Acontece que ela tinha desfilado com um biquini com armação de arame que estava machucando. Ela então tirou o biquíni, vestiu uma saia e foi assim mesmo. Acontece que o camarote fica num nível mais elevado, e os fotógrafos da pista a fotografaram. O Itamar não sabia de nada. Foi apenas uma moça que teve o privilégio de ir cumprimentar o presidente. Mas no dia seguinte foi um prato cheio para quem se incomodava com as atitudes mais simplórias dele.

Ele ficou conhecido como um político extremamente ético. Como isso estava presente no seu governo?

Ele era um dos poucos que alimentou, durante toda a vida, o seu caráter, a sua honestidade, a ética diante da coisa pública. Um exemplo foi quando ele estava no exercício do poder e chegaram ao ouvido dele denúncias de que o Henrique Hargreaves (então ministro chefe da Casa Civil) estava em conchavo com elementos de persuasão ao governo para determinados interesses, aqui e ali. E quando isso começou a pipocar nos jornais, ele disse: “Henrique, você vai pedir licença, se afaste e, nesse pedaço de tempo, deixe correr todas as denúncias. Você vai provar que você é inocente”. Foi o que ele fez. Dois, três meses depois, Hargreaves foi inocentado e assumiu o cargo dele com muito mais moral do que antes. Tem vários políticos aí envolvidos com dezenas de denúncias, por que não usam esse exemplo do Itamar?

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