Lambe-lambe colado em frente ao escritório de Russomanno em São Paulo, na quinta-feira
Na semana anterior aos primeiros grandes atos desde agosto, grupos usam redes para "denunciar" defensores de Dilma
Na manhã de quinta-feira (10), às vésperas dos primeiros grandes protestos anti-Dilma desde agosto, que ocorrem neste domingo (10), o escritório do deputado federal Celso Russomanno amanheceu tomado por lambe-lambes "denunciando" que o líder do PRB na Câmara ainda não havia se posicionado sobre o impeachment.
No mesmo dia, o parlamentar Pedro Chaves (PMDB-GO) rebatia nas redes sociais a cada vez mais constante perseguição que tem sofrido de internautas para se posicionar sobre o tema, afirmando que "assim que for instaurada a Comissão [que analisará o pedido de impeachment da presidente], comunicará seu posicionamento a todos do Estado de Goiás que representa".
Apesar de não ser exatamente nova, a estratégia de constranger deputados, tanto pessoalmente quanto por meios virtuais, para obter apoio pelo impeachment de Dilma se intensificou de forma patente nos últimos dias, após o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, anunciar que acataria o processo de contra a petista.
Desde a última quarta-feira (2), os principais movimentos que pedem a queda da presidente passaram a publicar diariamente os nomes e contatos telefônicos de alguns dos parlamentares ainda em cima do muro em relação ao processo de impeachment, movimento que ganhou grande força neste final de ano devido a embates entre Cunha, que acatou o processo, e o governo federal, que resolveu votar a favor da ação para cassar o mandato do deputado.
Publicadas nas páginas dos movimentos, textos com a foto, que apontam telefone do gabinete – ou mesmo pessoal – e endereços eletrônicos do parlamentares pedem aos eleitores para enviar a eles mensagem, encher suas linhas do tempo no Facebook com textos, pressionando ao máximo para exigir posicionamentos oficiais a respeito do impeachment. E muitos de seus seguidores passaram a fazê-lo.
Foco no ParlamentoA estratégia de pressão direta contra parlamentares começou a ser aplicada em maio, ocasião em que lideranças de movimentos fizeram passeata até o Distrito Federal para se encontrar pessoalmente com deputados para expor sua causa. Até então, com os grupos focados em protestos de rua, mesmo entre a oposição, eram poucos os políticos que se posicionavam sobre o assunto
Aos poucos, alguns parlamentares passaram a abraçar os grupos e anunciar seu apoio a eles, inclusive se tornando seus representantes dentro do Congresso Nacional – caso, por exemplo, de Jair Messias Bolsonaro (PP-RJ), que passou a caminhar pelos corredores de Brasília com o boneco "Pixuleco", uma caricatura de Luiz Inácio Lula da Silva vestido de presidiário, que se tornou símbolo dos anti-Dilma.
Imagem da Avenida Paulista no último grande ato contra a Dilma, realizado no mês de agosto
Outros, defensores do mandato da presidente, naturalmente, não. Mas, no momento em que a Câmara começa a se organizar para votar a saída da presidente do cargo para o qual se reelegeu no ano passado, boa parte ainda não emitiu opinião. E são exatamente esses últimos os alvos dos anti-Dilma.
De acordo com o "Placar Fora Dilma", criado pelo Movimento Brasil Livre (MBL), chega a quase 200 o número de deputados que não se posicionaram oficialmente a respeito de seus votos caso o processo vá para Plenário – índice maior do que aquele de apoiadores ou detratores da presidente, dividido, com 160 favoráveis e 168 contrários. Para o impeachment ir para julgamento no Senado, 2/3 dos deputados têm de votar favoravelmente a ele.
"Fizemos atos gigantes ao longo do ano e outros protestos mais focados, como no Tribunal de Contas da União (TCU), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para pressionar por questões específicas. Mas, agora, que as coisas estão realmente acontecendo, tudo ficou mais fácil: o leque passa a se restringir somente aos deputados, aqueles que vão definir se Dilma cai ou não", explica Renan Santos, coordenador nacional do MBL, grupo organizador dos protestos deste fim de semana ao lado do Vem Pra Rua.
"A disputa é de olho nos partidos que estão na base governista, como PSD, PDT, Pros, PR, PP. Estamos falando de uns 150 votos, essenciais para conquistarmos nossa demanda. Então, a pressão é para que o eleitor deles vejam como seu parlamentar está se posicionando sobre isso e para que fiquem em cima para uma resposta rápida. É para pesar mesmo e converter essa pressão em posicionamento, de preferência, favorável ao impeachment."
Apesar de ainda incipiente, a estratégia parece já surtir efeito. Nesta semana, após ser taxado como um dos "inimigos do Brasil" e ver divulgados seus números de telefone e endereços nas redes sociais, Esperidão Amin (PP-SC), divulgou que abraçaria as bandeiras dos movimentos. No mesmo dia, vários dos parlamentares atacados trataram de tema para evitar mais críticas de eleitores, que têm exigido, com posts em suas linhas do tempo do Facebook, clareza na questão.
"Alguns movimentos mentem descaradamente sobre minha posição, pois eu nunca disse que votaria contra. Meu voto será declarado no momento certo dentro do processo de impeachment e votarei alinhado com o desejo da maioria da população brasileira, podem ter certeza", rebateu em post Russomanno, um dos focos preferenciais dos grupos anti-Dilma. "Ainda iremos deliberar sobre esta questão. Dessa forma, qualquer ilação a respeito de nosso posicionamento é intriga", fez coro Sarney Filho, maranhense indicado pelo Partido Verde para a comissão que analisará o impeachment.
"Os movimentos estão trabalhando incessantemente nesta direção. Não é porque não temos passeata em massa que não existe pressão", diz Rogério Chequer, líder do Vem Pra Rua. "Esta pressão digital será cada vez mais um papel constante dos movimentos e, à medida que as coisas se encaminham, mais políticos têm respondido a ela. Vamos derrubar a presidente."
Mais de 60 municípios já têm confirmados protestos pelo impeachment neste domingo (13).
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