domingo, 27 de dezembro de 2015

ANGOLA:O quarto andamento de Samakuva



“Pedimos ao eleitorado o benefício da dúvida para demonstrar que somos capazes de governar melhor”.



Depois de um consulado de 12 anos à frente do maior partido na oposição e da segunda força política (UNITA) do País, Isaías Samakuva, o terceiro candidato à liderança a ser eleita no próximo XII congresso, apresenta-se como um político maduro, capaz de o conduzir à mudança como alternativa de governo: sublinha a passagem de forma militarizada a  partido político comprometido com a democracia e a paz, reconhece os tímidos avanços e as dificuldades em alcançar consenso com outras formações políticas, os receios do eleitorado, os muros dos medos impostos pelo regime e revela que tem sido abordado em Angola e no estrangeiro, em surdina, por membros e ou dirigentes do MPLA para conversas amigáveis sobre o futuro.
Longe vão os tempos em que os dirigentes do ‘Galo Negro’ se apresentavam diante da opinião pública ou do eleitorado com um discurso musculado, possuindo o monopólio da oposição e da alternância de governo. Ao convocar, na passada terça-feira, 24, a imprensa e representantes de organizações da sociedade civil para a troca de impressões, Samakuva, um dos três candidatos à liderança, a par de Lukamba Gato e Camalata Numa, mostrou ser um político experiente, humilde e de ambições realistas, com um discurso pragmático, sem poupar críticas ao MPLA, centradas nas práticas autoritárias, incapacidade de gestão e corrupção.
Samakuva, que num dos momentos da prolongada conversa reconheceu que no início da sua liderança teve de impor autoridade devido à falta de sintonia de vozes no interior da UNITA, fez questão de sublinhar as marcas do seu longevo consulado, ao dizer que o ‘Galo Negro’ hoje não é apenas um partido de simpatizantes e amigos, pois consegue ir um pouco mais além do seu eleitorado natural, apesar de reconhecer os receios de várias franjas da população, o medo imposto pelo regime, a desconfiança cimentada por muitos anos de guerra civil e uma propaganda sistemática contra o seu partido pelos ‘nossos irmãos do MPLA’, terminologia que repetiu naturalmente durante o encontro.
O candidato à sua própria sucessão enfatizou o facto de a transformação da UNITA em partido pacífico comprometido com a democracia, a paz e o Estado de direito estar consagrada e provada, apesar das inúmeras provocações e sacrifícios consentidos, inclusive com a morte dos seus militantes. Samakuva desdramatizou as críticas de dentro e fora, feitas por se candidatar a mais um mandato presidencial, evocando o exemplo de determinados partidos europeus, como a democracia cristã alemã com os longos consulados de Helmut Khol e Angela Merkel ou mesmo do Partido Popular Espanhol, com Mariano Rajoy, entre outros, acrescentando que nem nos estatutos do ‘Galo Negro’, nem no regime constitucional da República, há indicadores no sentido antidemocrático destes mandatos sucessivos.
De resto, aproveitaria a deixa para desmistificar outra crítica ocorrente no seio de algumas sensibilidades sobre o factor étnico na UNITA, predominantemente Ovimbundu, exemplificando com gerações de dirigentes do ‘Galo Negro’, desde os tempos de Jonas Savimbi, Nzau Puna a Tony da Costa Fernandes, passando por António Dembo, por exemplo, como oriundos de certas regiões de Angola.
Ao longo de uma pouco frequente assumpção dos erros políticos do seu partido, admitiu, implicitamente, que a fase da guerra civil teve consequências a nível das populações até aos dias de hoje, disseminando desconfianças e medo, mas manifestou-se satisfeito por hoje ser normal, mesmo na capital, em Luanda, as pessoas conviverem com membros da UNITA e exprimirem-se de um modo muito mais livre que no passado, apesar dos ‘tímidos avanços’ no relacionamento com a sociedade civil e das dificuldades no alcance de consensos com outras forças da oposição.
Noutro indicador da lenta, mas notória evolução do relacionamento político no País, revelou algo “impensável há apenas alguns anos”, de que tem tido encontros com membros ou dirigentes do MPLA para conversas ou troca de opiniões informais, dentro e fora de Angola, de um modo mais ou menos cauteloso, para não empregar outro adjectivo.
O terceiro candidato à cadeira presidencial do ‘Galo Negro’ fez uma breve resenha histórica das tentativas de obtenção de consensos ou plataformas conjuntas com as oposições desde 2003 até à data, com o sucessivo cortejo de aproximações, desentendimentos, desafectos ou mesmo deserções nos vários pleitos eleitorais que o País conheceu, a partir dos tempos do PDP-ANA e do PLD de Mfulupinga Nlandu Víctor e Anália de Victória Pereira, passando pela FpD, hoje Bloco Democrático, e pela FNLA. Samakuva, que não ignorou os obstáculos na obtenção de consensos, admitiu que, sobretudo na fase pré-eleitoral, quando se trata de examinar candidaturas conjuntas ou outros objectivos específicos, surgem as maiores dificuldades, pois cada formação tende a apresentar-se isolada, embora reconheça que esta reclamação de unidade das oposições tem vindo a ser exigida por vários sectores da população no espaço público.
Conquanto Isaías Samakuva tenha admitido que a UNITA, em coligação eleitoral ou sozinha tem capacidade de alcançar a alternância governativa em 2017, tanto entre os dirigentes do Galo Negro como entre a opinião pública, não existe tão firme convicção. O “esforço feito pela UNITA para ultrapassar as fronteiras partidárias e as diferenças” com outros sectores parece assim insuficiente para se consumar o desiderato da mudança eleitoral, política e governamental proposto por Samakuva, que fez referência às “posições comuns em várias questões de interesse nacional, tais como: críticas e oposição à actual Lei Geral do Trabalho”, para ilustrar as suas asserções.
Em matéria de coligações, apesar da abertura do maior partido na oposição, em geral, e de Samakuva, em particular, que não fechou a porta às outras forças das oposições, parece existir ainda um difícil caminho por percorrer, quando se trata de concretizar alianças ou plataformas eleitorais.
Uma das observações feitas ao cessante líder do ‘Galo Negro’ foi o facto de a UNITA, à semelhança de outros partidos, centrarem as suas atenções mais para a alternância de governo - um objectivo difícil de alcançar nas actuais circunstâncias pelos mais diversos factores, do que, por exemplo, para as eleições autárquicas - no que seria percebido como uma estratégia pouco realista.
A candidatura de Samakuva diz ter tomado boa nota desta observação para escutar ainda atentamente casos em que militantes da UNITA, como foi exemplificado em Benguela, sem qualquer cogitação de suposta orientação dirigente, poderem ter-se envolvido em situações menos abonatórias de conflito.
Já nas vestes de um eventual candidato à presidência de Angola, Samakuva, numa rara inflexão para um discurso mais ‘estadista’, procurou tranquilizar ricos e algumas franjas do poder: “nós não queremos expulsar os ricos se formos governo; queremos apenas que invistam mais no País, que exista transparência no Governo e nos negócios, que criem mais empregos”. Afirmou, igualmente, que, apesar de “algumas franjas do poder temerem que a UNITA esteja na presidência, queremos acabar com este receio, pois continua a fomentar-se a desconfiança para a enfraquecer, na qualidade de um partido político nacional comprometido com o Estado de direito, a democracia e a paz”.
O líder cessante do ‘Galo Negro’ evocou a alegada declaração de Durão Barroso, antigo presidente da Comissão Europeia, segundo o qual “a UNITA é o principal factor de estabilidade em Angola”, porque, apesar das difíceis circunstâncias, não cedeu às tentações de enveredar por outros caminhos.
Samakuva, que em tempos idos ocupou lugar importante na diplomacia do ‘Galo Negro’, sustentou que a actual contra-ofensiva diplomática do governo do MPLA e do Executivo no exterior não corresponde àquilo que se diz oficialmente em Angola, sobretudo com relação aos EUA. De acordo com as suas fontes em Washington, “há muitas reticências, porque não existe plano para sair da crise”, pelo que não acreditaria piamente, nem nas soluções económicas que têm sido apontadas, nem nas versões do poder relativamente à situação dos direitos humanos e da democracia.
Quanto à recorrente campanha do partido que detém o poder, no sentido de fazer a colagem das últimas manifestações das forças políticas e sociais a favor da democracia à suposta instigação de forças externas, fez saber que “os irmãos do MPLA sabem que, desde os tempos da guerra, foram as forças externas que incentivaram a desunião entre os angolanos; eles tiveram apoios e, ao contrário do que se diz, podia ter-se chegado a um entendido mais cedo”. E exemplificou determinados países e personalidades do Ocidente e do Leste que se esforçaram, por exemplo, na época das sanções, em instigar acções contra a UNITA a ponto de pretender invadir e vistoriar as residências dos seus dirigentes baseados na Europa.
Entrementes, entre a história política contemporânea e a realidade actual, o líder revelou que “os conselhos que alguns nos davam quando o presidente Savimbi e a UNITA chegaram a Luanda, de que se deveria responder à altura, com posições musculadas, pois havia uma tradição de abusos e autoritarismo, não correspondiam à melhor estratégia política”.
“Hoje, temos um partido aberto à sociedade civil, a todas as contribuições exteriores à UNITA e queremos uma verdadeira mudança democrática”, rematou, tendo, numa posição bastante conciliadora, reiterado que, com ele ou não na liderança, todos continuarão a trabalhar para aquele objectivo.
Em resumo, diríamos que o candidato à liderança da UNITA se apresenta agora como um político mais maduro e experiente do que os seus adversários, mas alguns lhe assacam a necessidade de maior acutilância política em termos de apresentação de plataformas de alternância. Esta situação que, pensam muitos dentro e fora da UNITA, se o partido pode ajudar, não parece fácil por agora conseguir sozinho, sem outras forças políticas e sem o concurso activo da sociedade civil ou de desafectos do MPLA.
Afinal, o baralho das cartas políticas e dos cenários eleitorais ainda não foi dado de uma vez por todas, como alguns sonhavam.

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