terça-feira, 29 de setembro de 2015
Os Legados Ancestrais na Cultura Afroindígena Brasileira (africaeafricanidades.com)
CORPO: SOM E MOVIMENTO
Os legados ancestrais na cultura afroindígena
brasileira e a implementação da lei
11.645/08
Denise Guerra
Especialista em África / Brasil: Laços e Diferenças - UCB
E-mail: denise.guerra@yahoo.com.br
“Creio no tambor que redobra, porque o que haveria sido do
mundo se não tivesse sido inventado o tambor, se a poesia não
reinventasse o mundo dentro de nós, se o conto, ao improvisar o
mundo, não o reordenasse, se o teatro não desvelasse a
cerimônia secreta das máscaras e por isso...Por que creio, narro
oralmente.” (Garzón Céspedes)
As heranças culturais entre os índios e descendentes africanos
brasileiros guardam muitas semelhanças. Ambos os povos que deram origem
aos brasileiros (negros e índios) foram expulsos de suas terras, roubados em
suas culturas, desvalorizados quanto as suas vozes-línguas, execrados nos
seus costumes, feridos quanto as suas crenças religiosas e estigmatizados
quanto as suas identidades, para que assim servissem aos desejos do
colonizador como marionetes vivas. Entretanto, como observou Freire (2004)
os povos em questão utilizaram-se de uma “Manha histórica” como postura de
sobrevivência e resistência. É esta manha histórica que deu origem a tão rica
cultura (música, dança, arte, literatura etc.). A cultura afro-indígena brasileira é
herdeira de grande beleza e peculiaridade singular.
Alguns símbolos são igualmente significantes nas culturas africanas e
indígenas. Ao discorrer neste trabalho sobre os referidos símbolos intenciono
propor seu reconhecimento e valorização para a afirmação da nossa identidade
Revista África e Africanidades - Ano 3 - n. 9, maio, 2010 - ISSN 1983-2354
www.africaeafricanidades.com
Revista África e Africanidades - Ano 3 - n. 9, maio, 2010 - ISSN 1983-2354
www.africaeafricanidades.com
étnico-cultural. Desta forma, chamarei a atenção para as diversas insígnias
entrecruzadas pelos afro-indígenas brasileiros. Num segundo momento,
levanto sugestões para o trabalho docente nas diversas disciplinas da
educação básica, reiterando que a prática escolar pode e deve ultrapassar os
limites da lei 11.645/08 visto que a realidade possui dimensões bem maiores.
A terra
O primeiro de todos os símbolos afro-indígenas é considerada pelos
seus filhos um Espaço de Vida, um Templo Sagrado acolhedor e fonte de
riqueza. Homem e Natureza vivem uma comunhão de amparo mútuo e de
integração a partir do respeito e da reverência. Na Dupla vivência do Homem
com a Natureza os povos indígenas e africanos não vêem separação, fazem
invocações, saudações à natureza especialmente às Árvores e aos seres
Ancestrais. A natureza e os seres ancestrais por sua vez lhes dão sinais e
apontam caminhos através dos trovões, das águas, dos ventos, dos animais,
dos espíritos etc. Há uma relação de respeito e não de posse nas culturas afroindígenas
em relação a terra, tanto assim que os africanos chegam a dizer que
não são eles os donos da terra, é a terra que os tem. A visão de mundo de
ambos é de forma cíclica e não linear. Os afro-indígenas atribuem à terra um
valor tal que sem ela é como se lhes faltassem o ar.
As árvores
Falando da terra somos levados a pensar nos seus frutos, cito
particularmente as árvores pela simbologia que as cerca em ambas as culturas.
Por extensão, a relação com a natureza para ambas as culturas é muito
próxima. Os indígenas acreditam que as árvores são espíritos que já foram
pessoas e agora vivem nesta forma de vida. Os Deuses indígenas estão
distribuídos na natureza e seus ancestrais são lembrados, valorizados e
cultuados como fazem os africanos com seus ancestrais. As árvores são
também associadas aos contadores de história detentores da arte e da magia
de encantar pela tradição oral. Segundo a tradição africana, nas árvores pode
ser plantado o axé do povo de santo de uma casa. Diz-se que antigamente
quando um griot morria abria-se o tronco de um baobá e sepultavam o corpo
do morto neste tronco. “O Tempo dá, o tempo tira, o tempo passa, a folha vira”
(Provérbio africano)
A tradição oral
É de suma importância para as culturas afro-indígenas. A Voz e a
Língua Afro-Indígena que traduzidas na cultura oral contam suas histórias,
cantam seus orikis, lançam luz à magia dos seus mitos, trazem suas memórias,
ensinam através de provérbios aos pequenos curumins, ibejis, erês, crianças, a
cultura de seu povo e a direção que devem tomar em suas vidas. Por muito
tempo os Afro-indígenas brasileiros foram forçados ao silenciamento e
arrancados de dentro dos seus significados linguísticos, no entanto, não se tira
o pensamento de uma pessoa, nossos antepassados continuaram pensando
Revista África e Africanidades - Ano 3 - n. 9, maio, 2010 - ISSN 1983-2354
www.africaeafricanidades.com
Revista África e Africanidades - Ano 3 - n. 9, maio, 2010 - ISSN 1983-2354
www.africaeafricanidades.com
em suas línguas, produzindo cultura, transmitindo e ensinando mesmo que
através do discurso simbólico como é o caso do Jongo. Nas vozes dos mais
velhos o segredo e os costumes são passados como garantia de manter as
heranças ancestrais.
“Creio no contador, concebido nos espelhos da água, nascido
humilde, tantas vezes negado, tantas vezes crucificado, porém
nunca morto, nunca sepultado, porque sempre ressuscitou dos
vivos congregando-os a ser: xamã, fabulista, contador de
histórias...” (Garzón Céspedes)
A arte
Uma das marcas mais fortes de identidade étnica é a arte criada por um
povo. Neste ponto os afro-indígenas foram bastante singulares, pois,
produziram sua arte em referência às suas vidas como auto afirmação e não
mera reprodução de modelos acadêmicos. A arte para os afro-indígenas tem
um valor diferente da arte do homem europeu. Antônio Olinto (in Lody e Olinto
2007 – Olinto foi adido cultural do Brasil na Nigéria) dizia que:
“o africano não esculpe uma figura ele é a figura que esculpe. Não
dança. Ele é a dança.Na identidade perfeita sujeito objeto, o
africano é a coisa que faz. Para ele, todos os objetos do mundo
estão ligados entre si e estão ligados ao seu corpo e ao seu
espírito.”
A arte afro-indígena soma utilidade e estética com fins de prazer, beleza
e fruição, que identifica seu povo. A arte afro-indígena pode estar nos objetos,
na música, dança, pintura corporal, artesanato e nos rituais sagrados.
O sagrado
Os povos afro-indígenas são politeístas e seus deuses encontram-se
preferencialmente relacionados à natureza. Os principais dirigentes dos
saberes e segredos mágicos nestas duas culturas são o xamã ou o pajé(na
cultura indígena), e o pai(mãe) de santo ou babalaô(na cultura afro). Ambas as
autoridades religiosas, dos afro-indígenas, utilizam-se dos conhecimentos de
plantas e ervas, possuem poderes curativos, alguns tem o dom da vidência e
muito prestígio dentro de suas comunidades. A noção de convivermos com
dois mundos simultâneos, um visível e o outro invisível (Orum e Ayê da cultura
afro) está para os afro-indígenas na mesma conta.
Identidade étnica
Passando por áreas tão sensíveis como a natureza, a arte e o místico,
podemos dizer que chegamos a uma mostra do que pode ser a identidade
étnica afro-brasileira. A identidade étnica é um fenômeno em permanente
construção, ela pode afirmar ou negar o pertencimento de uma pessoa
recriando significados e intencionalidades. A visão do homem e da sociedade
nas comunidades afro-indígenas também parte do mesmo ponto: O coletivo
vem antes do individuo, há o conceito de famílias extensas onde todos os
Revista África e Africanidades - Ano 3 - n. 9, maio, 2010 - ISSN 1983-2354
www.africaeafricanidades.com
Revista África e Africanidades - Ano 3 - n. 9, maio, 2010 - ISSN 1983-2354
www.africaeafricanidades.com
membros cuidam igualmente uns dos outros como se segue na criação dos
filhos, todos da comunidade são responsáveis. O convívio em grandes grupos
comunitários realizando tarefas em conjunto é desejado por todos. A identidade
étnica Afro-indígena está certamente nesta integração de povos que valorizam
a tradição, a natureza, o convívio com os “parentes” e seus ancestrais.
Educação
Depois de conhecer os aspectos marcantes e semelhantes das culturas
afro-indígenas passamos a pensar na implementação da Lei nº 11.645, de 10
março de 2008 que altera a Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996,
modificada pela Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as
diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede
de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e
Indígena”.
Apesar das discussões delimitadas na lei, percebe-se que as diversas
áreas do currículo escolar carecem de investimentos para que possa contribuir
igualmente com seus conhecimentos, o que enriqueceria as discussões e
ampliaria o espaço de atuação dos docentes e de esclarecimentos dos
discentes na direção de uma verdadeira educação para a diversidade étnica e
cultural brasileira. Seguem-se agora algumas sugestões do que cada disciplina
do currículo da educação básica brasileira poderia vislumbrar em suas práticas
nas escolas.
Português/Literatura: desde o seu objeto privilegiado, contos, lendas, mitos,
poesias, etc até a exposição de um dicionário repleto de palavras derivadas
das línguas étnicas ameríndias e africanas, a língua oficial portuguesa do Brasil
conta com as interferências do bilingüismo afro-indígena e a riqueza da
tradição oral destes povos. Ressalta-se aqui o poder da voz nestas culturas
multiétnicas.
“Creio nos contos de minha mãe, como minha mãe acreditou nos
contos de minha avó, como minha avó acreditou nos contos de
minha bisavó e recordo a voz que me contava para afastar a
enfermidade e o medo, a voz que recordava os conselhos
entesourados pela mãe para passá-los ao filho;— Não te desvies
do teu caminho.— Nunca faças de noite o que possas te
envergonhar pela manhã.” (Garzón Céspedes)
A Arte: a arte brasileira nas suas diversas manifestações é herdeira de
gingados, traçados, ritmos, poesias, e outras estruturas; ela nos identifica,
particulariza, fortalece e perpetua através das resistências. A arte pode ser um
veículo de expressão agregador das diversas heranças culturais.
A Matemática: hoje tão técnica nas grandes cidades, talvez possa ensinar
cálculos, medições, quantificações e estratégias de outras maneiras, por
Revista África e Africanidades - Ano 3 - n. 9, maio, 2010 - ISSN 1983-2354
www.africaeafricanidades.com
Revista África e Africanidades - Ano 3 - n. 9, maio, 2010 - ISSN 1983-2354
www.africaeafricanidades.com
exemplo, trilhando os caminhos da etnomatemática. Conforme Lopes (2006) a
etnomatemática, estudada atualmente na Faculdade de Educação da USP, é
uma moderna forma de ensino da matemática que é feita levando-se em conta
o fato de que povos de várias partes do mundo desenvolveram métodos
próprios de contar, medir e marcar o tempo, como ficou evidenciado em
algumas tradições africanas.
A Geografia: situando os climas, os tipos de solos, as vegetações, os
territórios e a população das terras brasilis e africanas com suas diferenças
étnicas e as diversas mudanças bio-psico-sociais que sofreram com a
mestiçagem e a exposição a tantas intempéries naturais, contribui para o
conhecimento do ser afro-indígena brasileiro e do mundo que nos cerca.
A História: pode contribuir promovendo o resgate histórico entre o Brasil, a
África e as diversas etnias ameríndias e africanas valorizando o passado,
reconhecendo as culturas e suas singularidades, suscitando reflexões sócio
políticas e antropológicas.
As Ciências Biológicas: pesquisando sobre a saúde da população afroindígena
brasileira que com certeza recebe os ônus e os benefícios promovidos
pelas misturas étnicas. Da mesma forma, pode ilustrar os estudos das espécies
da falna e da flora vindos da África para o Brasil e as espécies derivadas nesta
terra, além das questões relacionadas às heranças nutricionais que marcam os
seres da nossa cultura.
A Educação Física: trabalhando a ressignificação da cultura corporal com
suas práticas culturais, folclóricas, esportivas e ou lúdicas reforçando nossa
realidade e nossa diversidade. Dando suporte a valorização da imagem
corporal, reforçando o pertencimento as etnias originárias do nosso povo, bem
como, nossa auto afirmação identitária. Promovendo a inclusão e a não
discriminação quanto ao gênero, etnias, condição física ou social.
Nos quilombos, nas aldeias, ou nas escolas, lugares feitos para agregar
pessoas, conhecimentos, cumplicidades, interesses mútuos e resistências
culturais, sempre houve e sempre haverá uma boa causa para fazer valer
nossas essências humanas. Que a educação no Brasil possa ser plural,
voltada para a diversidade e contra toda forma de discriminação. Que nós
possamos nos comprometer com a verdade, a justiça, a honestidade, e com o
respeito as nossas Heranças Ancestrais.
“Que A Água Seja Refrescante,
Que A Casa Seja Hospitaleira,
Que O Mensageiro Conduza Em Paz
Nossa Palavra”
(Benção Yorubá)
Revista África e Africanidades - Ano 3 - n. 9, maio, 2010 - ISSN 1983-2354
www.africaeafricanidades.com
Revista África e Africanidades - Ano 3 - n. 9, maio, 2010 - ISSN 1983-2354
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário