Artista combate câncer ao mesmo tempo em que discute sexualidade na periferia de São Paulo: “Comecei a olhar para a doença para entender e potencializar o corpo; fazer das minhas frescuras o meu processo de libertação”
Linn Santos tem 25 anos, declara-se logo de início como “uma bicha, trans, preta!”. Em entrevista ao iGay, ela diz que prefere ser direcionada no gênero feminino e revela questionar a própria imagem e o próprio corpo. “Minha estética, meu comportamento e minha atitude não formam uma apresentação gay. Acabo transgredindo e ultrapassando essas barreiras”, diz.
Opressão e machismo na periferia
Diretora da peça “É pra copiar ou reescrever?” - apresentada nas escolas da periferia de São Paulo - , Linn trabalha discutindo as questões de sexualidade e gênero entre os jovens.
O espetáculo, que faz parte do projeto Espaço Aberto para a Diversidade Sexual e de Gênero na Periferia, é resultado de uma pesquisa realizada com dez adolescentes de São Mateus, bairro da capital paulista, que discutiu questões como pornografia, sexo, sexualidade e igreja, a partir das vivências dos próprios jovens.
“Não é uma obra de ficção, são nossas histórias, experiências de mulheres pretas, periféricas, bichas, lésbicas, transviadas”, diz. O espetáculo tem o objetivo de olhar para os preconceitos para percebê-los, agir sobre eles e colocá-los em processo constante de desconstrução.
Segundo Linn, a escola e os jovens ainda se revelam opressores e machistas atualmente e, por isso, reforça a importância de seu trabalho. “Lá, na escola, é onde o cidadão se constrói. Nós temos que repensar e construir a maneira de olhar as diferenças desde cedo”, completa.
Minha estética, meu comportamento e minha atitude não formam uma apresentação gay"
Descoberta do próprio corpo
Linn nasceu em São Paulo, mas foi criada em São José do Rio Preto, onde trabalhou em um salão de cabeleireiro. “Foi lá que pude vivenciar minha sexualidade e conhecer pessoas trans, travestis”, lembra.
Aos 19 anos, Linn voltou à capital paulista ao conquistar uma bolsa de dança no Centro de Artes. “Meu corpo, que tinha sido tão negado, foi encontrado. Pude experimentá-lo, reinventar os modos de ser e reviver no mundo”, diz.
“Duvido a minha imagem. Quantas mais eu posso ser?", questiona Linn
Mesmo com as recentes descobertas, ela afirma que precisava de novas oportunidades e procurou a Escola Livre de Teatro de Santo André. “Encontrei o lugar onde eu podia fazer teatro, estudar, pesquisar e questionar a sexualidade na própria arte”, disse.
Luta contra o câncer
Em julho de 2014, Linn descobriu um tumor no testículo. “Fiz quatro meses de quimioterapia, retirei o órgão, mas agora as glândulas reapareceram próximas aos rins”, explica ela.
Sempre esperei produzir força. Força e coragem para se permitir ser fraca, frágil e feia", comenta Linn sobre a doença
Durante os procedimentos, Linn raspou o cabelo e, mais uma vez, viu-se questionando suas fragilidades. “Comecei a olhar para a doença para entender e potencializar o corpo; fazer das minhas frescuras o meu processo de libertação”, revela.
“
Temos que entender que o corpo, enquanto corpo, pode adoecer"
“Na era da produção, se espera fazer. Sempre esperei produzir força. Força e coragem para se permitir ser fraca, frágil e feia”, desabafa.
Apesar das limitações do tratamento, finalizado em agosto, a artista continua apresentando seu espetáculo para os jovens. “Temos que entender que o corpo, enquanto corpo, pode adoecer”, reflete. “Até que ela (a morte) venha, a gente não dá conta que somos mortais, que todas essas coisas podem falhar”.
“Eu quebro o reflexo do homem que se esperava de mim, as expectativas de homem que se esperam de mim”, diz Linn Santos
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