sábado, 3 de outubro de 2015

Pedro Simon: Saída de Mercadante foi vitória de Lula e derrota para Dilma

Em entrevista ao 'JB', ex-senador fala da crise política, mas não crê em impeachment


Simon condena atitude de parlamentares de propor impeachment sem ter fatos ou provas contra Dilma


Com mais de 50 anos de experiência no dia a dia do Congresso Nacional e um dos nomes mais influentes na política nacional, o ex-senador Pedro Simon (PMDB) disse, em entrevista ao Jornal do Brasil, que nunca viu um período de tantas turbulências políticas como o atual.
Questionado sobre que motivos provocam tal diagnóstico, Simon cita prontamente as denúncias contra parlamentares envolvidos no esquema de corrupção na Petrobras e investigados pela operação Lava Jato.
Mas o ex-governador do Rio Grande do Sul argumenta também que faltou habilidade do governo da presidente Dilma Rousseff para lidar com a base. Ele defende que a Chefe do Executivo deveria ter seguido o exemplo do ex-presidente Itamar Franco assim que percebeu a crise política.
"Itamar reuniu todos os partidos, disse que não tinha base, não tinha partido, não tinha Congresso - que havia acabado de cassar o Collor - e propôs uma pauta comum. Ele propôs que o Congresso não batesse nele nem ele bateria no Congresso sem que antes houvesse uma conversa", relembra Simon.
Na opinião do peemedebista, é baixo o risco de que a Congresso volte a inflamar novos pedidos de impeachment. Ele assegura, porém, que o preço pago pela presidente Dilma foi o seu próprio enfraquecimento como resultado da reforma administrativa e ministerial, sobretudo com a saída de Aloizio Mercadante da Casa Civil, que era considera homem de confiança do Planalto.
"Ele (Mercadante) era uma peça fundamental para ela. Foi uma vitória do Lula e uma derrota dela para ela mesma", afirma, em alusão à entrada de Jaques Wagner, mais próximo de Lula, para assumir o comando da Casa Civil.

Jornal do Brasil - Qual é a análise que o senhor faz da atual conjuntura política?
Pedro Simon - Estamos chegando a uma situação em que se busca uma determinação. Esse envolvimento do presidente da Câmara vai para as manchetes dos jornais e se decide qual é a solução. Com o procurador apresentando a denúncia, o fato é que, em sendo presidente da Câmara, não precisaria esperar ser réu para se afastar. Já deveria ter se afastado. Isso ainda vai esquentar muito, sobretudo num momento em que a Câmara tem uma pauta e o Senado tem outra. Isso pode gerar fatos imprevisíveis.
Jornal do Brasil - É uma questão interna do PMDB?
Pedro Simon - O MDB é multifacetado. O vice-presidente Michel Temer e o presidente da Câmara tinham dado declaração que não indicavam ninguém para os cargos (ministérios da reforma administrativa, anunciada nesta sexta-feira), dando a entender que não queriam participar do governo. Quando ouvi isso, lá em Porto Alegre, lancei uma tese de que a gente deveria falar com a presidente que se o MDB é o partido que sempre diz que quer cargos e agora não quer, ela deveria promover um entendimento, fazer um pacto e chamar todo mundo à mesa.
Jornal do Brasil - A que o senhor atribui a falta de habilidade do governo com a base?
Pedro Simon - No fundo, o governo não tem proposta, não sabe o que quer. Há uma disparidade entre o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma. O Lula tem uma ideia, um pensamento dele e que não coincide com o da presidenta. O caso típico disso foi o Mercadante sair da Casa Civil, ele era uma peça fundamental para ela. Foi uma vitória do Lula e uma derrota dela para ela mesma. Ela não tem uma política firme, não sabe o que quer. Uma hora está aqui, outra hora está lá. Uma hora o ministro da Saúde é muito bom, outra hora ele é demitido por telefone (Arthur Chioro, que deixou o comando da pasta com a reforma). Se dependesse só do PT, ela (Dilma) sairia do governo.
Jornal do Brasil - Essa mudança do chamado “núcleo duro” do governo, com Jaques Wagner na Casa Civil, Edinho Silva na Secretaria de Comunicação e Berzoini na articulação política, pode melhorar o diálogo com a base aliada?
Pedro Simon - Qualquer um na Casa Civil seria melhor que o Mercadante. Wagner tem simpatia, capacidade e manejo, 99% da Câmara pensa assim.
Jornal do Brasil - Mercadante realmente tem problemas com o PMDB ou é um capricho do partido?
Pedro Simon - Mercadante tem uma posição, digamos assim, pessoal, como tem o próprio PT. Aliás, dentro do próprio PT há uma maioria que não tem nenhuma identificação com Mercadante.
Jornal do Brasil - Desqualifica-se muito o governo, mas o mesmo tem sido falado sobre a oposição, que ela não tem estratégia, por exemplo.
Pedro Simon - Não dá para falar em estratégia da oposição, porque não há um bloco de oposição. O MDB, por exemplo, tem várias divisões. Não se coloca o (Roberto) Requião junto com o presidente do Senado (Renan Calheiros). Assim como o Cristovam Buarque não se parece com um ou outro do PDT.
Jornal do Brasil - Mas o senhor considera, então, que a oposição ao governo é o próprio PMDB?
Pedro Simon - Eu não diria isso. Eu diria apenas que dentro do MDB tem de tudo. Tem os que apoiam a Dilma, tem os que acham que pode acontecer de nosso Temer aparecer e os que acreditam na tese de que o impeachment pode passar no Congresso. Mas não há fanáticos de um lado ou de outro. A situação em si é que é conturbada. Só um mágico pode saber o que irá acontecer.
Jornal do Brasil - O impeachment ainda tem força, mesmo depois da reforma ministerial?
Pedro Simon - Acho que ele esmoreceu. Para um processo de impeachment, primeiro são necessários fatos. Depois é que vem o impeachment. Foi assim no governo do Collor. Mas pedir o impeachment para depois criar uma CPI? Isso é meio complicado.
Jornal do Brasil - E em relação aos processos sobre pedaladas fiscais, no Tribunal de Contas da União (TCU), e de pedido de impugnação de chapa, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE)?
Pedro Simon - Isso, sim, pode criar fato que determine pedido de impeachment. O que não pode é pedir CPI para buscar os fatos. Uma coisa não deve se antecipar à outra. Essa é a grande diferença.
Jornal do Brasil - Alguns líderes do PMDB querem debater candidatura própria em 2018 no congresso do partido, em novembro. O senhor vê nomes para a disputa?
Pedro Simon - O MDB a vida inteira defende candidatura própria. Mas a cúpula faz os acordos e pronto, não deixa saída. Agora, em relação a nomes para candidatura própria à presidência da República, pelo amor de Deus, sempre tivemos. Só para citar um nome: o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes.
Jornal do Brasil - Esse movimento de agora, de afirmar que lançará candidato à Presidência da República, é diferente?
Pedro Simon - É, sim. Agora estamos numa situação sem profundidade, o tumulto (no governo) é tão grande, cada dia se apresenta um fato diferente, não dá para dizer o que se vai fazer na semana que vem. Nunca vi um momento tão complexo quanto esse. Reafirmo que Dilma deveria ter convocado todo mundo, a base aliada, para buscar um entendimento, antes que chegássemos ao momento atual.
Jornal do Brasil - Mas o que foi que ela não fez?
Pedro Simon - Fazer o que Itamar Franco fez. Reuniu todos os partidos, disse que não tinha base, não tinha partido, não tinha Congresso - que havia acabado de cassar o Collor - e propôs uma pauta comum. Ele propôs que o Congresso não batesse nele nem ele bateria no Congresso sem que antes houvesse uma conversa.
Jornal do Brasil - Isso inclui acusações de parlamentares ao governo de direcionamento nas investigações da Lava Jato?

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