Em entrevista ao 'JB', ex-senador fala da crise política, mas não crê em impeachment
Com mais de 50 anos de experiência no dia a dia do Congresso Nacional e um dos nomes mais influentes na política nacional, o ex-senador Pedro Simon (PMDB) disse, em entrevista ao Jornal do Brasil, que nunca viu um período de tantas turbulências políticas como o atual.
Questionado sobre que motivos provocam tal diagnóstico, Simon cita prontamente as denúncias contra parlamentares envolvidos no esquema de corrupção na Petrobras e investigados pela operação Lava Jato.
Mas o ex-governador do Rio Grande do Sul argumenta também que faltou habilidade do governo da presidente Dilma Rousseff para lidar com a base. Ele defende que a Chefe do Executivo deveria ter seguido o exemplo do ex-presidente Itamar Franco assim que percebeu a crise política.
"Itamar reuniu todos os partidos, disse que não tinha base, não tinha partido, não tinha Congresso - que havia acabado de cassar o Collor - e propôs uma pauta comum. Ele propôs que o Congresso não batesse nele nem ele bateria no Congresso sem que antes houvesse uma conversa", relembra Simon.
Na opinião do peemedebista, é baixo o risco de que a Congresso volte a inflamar novos pedidos de impeachment. Ele assegura, porém, que o preço pago pela presidente Dilma foi o seu próprio enfraquecimento como resultado da reforma administrativa e ministerial, sobretudo com a saída de Aloizio Mercadante da Casa Civil, que era considera homem de confiança do Planalto.
"Ele (Mercadante) era uma peça fundamental para ela. Foi uma vitória do Lula e uma derrota dela para ela mesma", afirma, em alusão à entrada de Jaques Wagner, mais próximo de Lula, para assumir o comando da Casa Civil.
Jornal do Brasil - Qual é a análise que o senhor faz da atual conjuntura política?
Pedro Simon - Estamos chegando a uma situação em que se busca uma determinação. Esse envolvimento do presidente da Câmara vai para as manchetes dos jornais e se decide qual é a solução. Com o procurador apresentando a denúncia, o fato é que, em sendo presidente da Câmara, não precisaria esperar ser réu para se afastar. Já deveria ter se afastado. Isso ainda vai esquentar muito, sobretudo num momento em que a Câmara tem uma pauta e o Senado tem outra. Isso pode gerar fatos imprevisíveis.
Jornal do Brasil - É uma questão interna do PMDB?
Pedro Simon - O MDB é multifacetado. O vice-presidente Michel Temer e o presidente da Câmara tinham dado declaração que não indicavam ninguém para os cargos (ministérios da reforma administrativa, anunciada nesta sexta-feira), dando a entender que não queriam participar do governo. Quando ouvi isso, lá em Porto Alegre, lancei uma tese de que a gente deveria falar com a presidente que se o MDB é o partido que sempre diz que quer cargos e agora não quer, ela deveria promover um entendimento, fazer um pacto e chamar todo mundo à mesa.
Jornal do Brasil - A que o senhor atribui a falta de habilidade do governo com a base?
Pedro Simon - No fundo, o governo não tem proposta, não sabe o que quer. Há uma disparidade entre o ex-presidente Lula e a presidenta Dilma. O Lula tem uma ideia, um pensamento dele e que não coincide com o da presidenta. O caso típico disso foi o Mercadante sair da Casa Civil, ele era uma peça fundamental para ela. Foi uma vitória do Lula e uma derrota dela para ela mesma. Ela não tem uma política firme, não sabe o que quer. Uma hora está aqui, outra hora está lá. Uma hora o ministro da Saúde é muito bom, outra hora ele é demitido por telefone (Arthur Chioro, que deixou o comando da pasta com a reforma). Se dependesse só do PT, ela (Dilma) sairia do governo.
Jornal do Brasil - Essa mudança do chamado “núcleo duro” do governo, com Jaques Wagner na Casa Civil, Edinho Silva na Secretaria de Comunicação e Berzoini na articulação política, pode melhorar o diálogo com a base aliada?
Pedro Simon - Qualquer um na Casa Civil seria melhor que o Mercadante. Wagner tem simpatia, capacidade e manejo, 99% da Câmara pensa assim.
Jornal do Brasil - Mercadante realmente tem problemas com o PMDB ou é um capricho do partido?
Pedro Simon - Mercadante tem uma posição, digamos assim, pessoal, como tem o próprio PT. Aliás, dentro do próprio PT há uma maioria que não tem nenhuma identificação com Mercadante.
Jornal do Brasil - Desqualifica-se muito o governo, mas o mesmo tem sido falado sobre a oposição, que ela não tem estratégia, por exemplo.
Pedro Simon - Não dá para falar em estratégia da oposição, porque não há um bloco de oposição. O MDB, por exemplo, tem várias divisões. Não se coloca o (Roberto) Requião junto com o presidente do Senado (Renan Calheiros). Assim como o Cristovam Buarque não se parece com um ou outro do PDT.
Jornal do Brasil - Mas o senhor considera, então, que a oposição ao governo é o próprio PMDB?
Pedro Simon - Eu não diria isso. Eu diria apenas que dentro do MDB tem de tudo. Tem os que apoiam a Dilma, tem os que acham que pode acontecer de nosso Temer aparecer e os que acreditam na tese de que o impeachment pode passar no Congresso. Mas não há fanáticos de um lado ou de outro. A situação em si é que é conturbada. Só um mágico pode saber o que irá acontecer.
Jornal do Brasil - O impeachment ainda tem força, mesmo depois da reforma ministerial?
Pedro Simon - Acho que ele esmoreceu. Para um processo de impeachment, primeiro são necessários fatos. Depois é que vem o impeachment. Foi assim no governo do Collor. Mas pedir o impeachment para depois criar uma CPI? Isso é meio complicado.
Jornal do Brasil - E em relação aos processos sobre pedaladas fiscais, no Tribunal de Contas da União (TCU), e de pedido de impugnação de chapa, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE)?
Pedro Simon - Isso, sim, pode criar fato que determine pedido de impeachment. O que não pode é pedir CPI para buscar os fatos. Uma coisa não deve se antecipar à outra. Essa é a grande diferença.
Jornal do Brasil - Alguns líderes do PMDB querem debater candidatura própria em 2018 no congresso do partido, em novembro. O senhor vê nomes para a disputa?
Pedro Simon - O MDB a vida inteira defende candidatura própria. Mas a cúpula faz os acordos e pronto, não deixa saída. Agora, em relação a nomes para candidatura própria à presidência da República, pelo amor de Deus, sempre tivemos. Só para citar um nome: o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes.
Jornal do Brasil - Esse movimento de agora, de afirmar que lançará candidato à Presidência da República, é diferente?
Pedro Simon - É, sim. Agora estamos numa situação sem profundidade, o tumulto (no governo) é tão grande, cada dia se apresenta um fato diferente, não dá para dizer o que se vai fazer na semana que vem. Nunca vi um momento tão complexo quanto esse. Reafirmo que Dilma deveria ter convocado todo mundo, a base aliada, para buscar um entendimento, antes que chegássemos ao momento atual.
Jornal do Brasil - Mas o que foi que ela não fez?
Pedro Simon - Fazer o que Itamar Franco fez. Reuniu todos os partidos, disse que não tinha base, não tinha partido, não tinha Congresso - que havia acabado de cassar o Collor - e propôs uma pauta comum. Ele propôs que o Congresso não batesse nele nem ele bateria no Congresso sem que antes houvesse uma conversa.
Jornal do Brasil - Isso inclui acusações de parlamentares ao governo de direcionamento nas investigações da Lava Jato?
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