U2, Miley Cyrus e Björk alguns dos monstros sagrados da música que lançaram álbuns conceituais recentemente. Marketing ou nostalgia?
Artistas lançam trabalhos de supetão na web para depois comercializá-los por vias tradicionais e esperam que redes sociais façam o trabalho duro. Mas nem tudo é tão simples como parece
Artistas como Beyoncé, Miley Cyrus e U2 estão enamorados de álbuns conceituais. Modelo de disco em que todas as músicas do trabalho dialogam expondo um pensamento mais encorpado e uma experiência estética mais extrema por parte do artista. Mas esse interesse de estrelas do pop por um tipo de disco bastante comum em uma era em que downloads e streamings eram coisa de ficção científica tem colocado uma pulga atrás da orelha de muita gente. Afinal, esse movimento é pura nostalgia ou tem uma máquina de marketing por trás?
O crítico de música Tom Leão desconfia do apelo de marketing que esses lançamentos possam ter. “O grande problema é que um trabalho do tipo tem de ser ouvido na ordem certa das faixas, e esse público não faz isso, só ouve os hits”, observa a respeito do público cativo de Miley Cyrus e Beyoncé.
Cyrus cantou a baderneira “Dooo it!” no último VMA, realizado no fim de agosto, para disponibilizar gratuitamente no dia seguinte o álbum “Miley Cryus and Her Dead Peatz”na internet. Com 23 faixas, o disco não fez barulho e pouco foi comentado nas redes sociais.
Se Miley teve o consentimento de sua gravadora para lançar um disco conceitual, Beyoncé o fez sem avisar a Sony Music, quando lançou "BEYONCÉ" no fim de 2013. Depois de disponibilizar o álbum no ITunes, Beyoncé, com o suporte da Sony, o lançou em diferentes formatos (CD,DVD, Blu-Ray, LP Duplo) e alcançou alguns discos de platina pelo mundo.
Para Leão, ousar na estratégia de um lançamento e batizá-lo de álbum conceitual não é o suficiente para entregar um álbum conceitual. Para ele, é uma questão de comprometimento. “'Vunilcura', da Bjork é profundo, denso. Tanto que ela parou a turnê que estava fazendo, porque se disse cansada de interpretar o álbum ao vivo. Sera que a Beyoncé tem essa entrega?”, provoca.
“Fazemos indie não por escolha, mas porque é desse universo que viemos”, revela ao iG o guitarrista da banda nacional Holger, Marcelo Pata. A banda que lançou seu terceiro álbum em 2014 frequenta a lista de melhores do ano de prestigiadas publicações musicais, mas não estoura. “Adoramos o sucesso, mas ele nunca foi uma meta. Fazemos música baseado no que sentimos que precisamos expressar, o que não necessariamente coincide com o que as pessoas querem ouvir”.
Com o lançamento na internet de seu terceiro disco (“Terceira Terra”) na última sexta-feira, o Supercordas, banda carioca na estrada desde o início da década passada, se mostra resiliente às demandas do mercado. “Desde 2003 nós disponibilizamos nosso som pela internet e é assim que ele sempre chegou às pessoas. Estabelecer parcerias com selos como a Midsummer Madness ou a Balaclava para fazer o som circular mais e fabricar versões físicas é uma consequência da qualidade da música”, advoga o líder da banda, Pedro Bonifrate.
A banda Supercordas que acabou de disponibilizar seu terceiro disco na internet: comercial não influencia na produção musical
Novela x Internet
“É claro que botar uma música num comercial ou numa novela é uma das formas mais efetivas de se conseguir ganhar algum dinheiro para financiar projetos musicais”, opina Bonifrate. Foi mais ou menos o que aconteceu com a cantora Tiê, que antes de colocar “A Noite” na abertura da novela das sete da Globo, “I Love Paraisópolis” não tinha emplacado nenhuma música nas rádios. A delicada “A Noite”, versão da música italiana“La Notte” de Arisa, integra o álbum “Esmeraldas”, terceiro da cantora e todo ele com uma pegada autoral estranha ao mainstream.
Os rótulos, porém, são o que garantem a vendagem da música. Jack White, apontado por Tom Leão como aquele que melhor adota estratégias para vender seus trabalhos, já fez parte de inúmeras bandas e fundou a própria gravadora em 2011. Mas é por transformar seus produtos em fetiche, lançando vinis em diversos formatos, edições limitadas e outros mimos, que White se diferencia na seara da música atual. “Acho que eu iria a falência na lojinha dele”, se diverte Leão.
O Arcade Fire, por exemplo, trabalha muito bem o conceito do álbum “Reflektor”. Lançado em 2013, o álbum ainda é lapidado pela banda. Na esteira do documentário sobre o álbum que será lançado neste ano, o Arcade Fire se prepara para lançar o disco em versão cassete. “Acho que quanto mais modos de chamar a atenção, melhor. Assim, as pessoas ficam sabendo que existem, ou existiram, outras mídias. Muita gente, porém, vai comprar e não vai ter onde tocar, como acontece com os hipsters americanos, que compram vinil só para expor na sala da casa, porque não têm vitrolas”, observa Leão sobre a multiplicidade de plataformas de lançamentos disponível na música contemporânea.
A internet, no entanto, adquiriu o protagonismo nessa frente. “Sem dúvidas ajuda”, admite Pata. “Com ela passa a ser possível ter gente ouvindo nossa música em qualquer canto do mundo”. Leão reforça a necessidade das gravadoras atentarem para esta tendência. “Se a indústria continuar ignorando, como fez no passado, pode acabar de vez. Hoje em dia, milhares de pessoas já nem baixam mais nada, ouvem os álbuns inteiros pelo YouTube! Quem preveria isso”?
Depois de uma experiência fracassada em 2014, quando lançou “Songs of Innocence” para todos os usuários da Apple antes de lançar o álbum nas lojas, o U2 anunciou para 2016 a continuação do disco, “Songs of Experience”, com o mesmo foco na criação de um álbum conceitual. Ao U2 e todos aqueles que tentam descobrir a fórmula mágica para promover um artista ou um disco, Pedro Bonifrate tem a receita. “O feedback vem da música, e não o contrário”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário