Só quem passou por uma experiência de abuso pode, de fato, relatar o trauma. Mas, é possível generalizar: qual a mulher que nunca se sentiu violentada?
Existe a ideia de que o mito é o único conhecimento compartilhável pelo senso comum. Mas o mito é sempre uma espécie de conotação - ele nunca vai permear a sociedade com um único significado. Pelo contrário, as significações são infinitas.
É a partir dessa ideia que entende-se que o mito do estuprador-monstro-desconhecido-morador-do-beco-escuro não faz sentido quando se trata da perpetuação da violência contra a mulher. Há muito deixou-se de acreditar nessa narrativa. E ai não é questão de opinião, mas sim de estatística.
Os dados do Mapa da Violência 2015 são claros: em 67,36% dos relatos obtidos, as violências foram cometidas por homens com quem as vítimas tinham ou já tiveram algum vínculo afetivo: companheiros, cônjuges, namorados ou amantes, ex-companheiros, ex-cônjuges, ex-namorados ou ex-amantes das vítimas. Já em cerca de 27% dos casos, o agressor era um familiar, amigo, vizinho ou conhecido.
A cultura do estupro não é limitável. Está em todas as classes sociais e em qualquer região do País. Segundo a ONU Mulheres, é "o termo usado para abordar as maneiras em que a sociedade culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos homens. Ou seja: quando, em uma sociedade, a violência sexual é normalizada por meio da culpabilização da vítima".
Em tempos de estupros coletivos, Hannah Arendt se faz necessária: há, também em nossa sociedade, a banalização do mal. A filósofa defende em sua obra que há uma multidão incapaz de fazer julgamentos morais, razão pela qual aceita e cumpre ordens sem questionar.
E o machismo faz isso. Você segue o fluxo. Você não se questiona. Quando casos como o do estupro coletivo ocorrido com a jovem carioca chegam a público, é esperado que a sociedade se questione. Talvez, como nunca antes, o Brasil se questionou.
Por que, entre aqueles 30 homens, nenhum foi capaz de dizer "não"? Há na construção social do papel masculino a obrigatoriedade e a rigidez de se mostrar o poder. E o poder, em muitos casos, é confundido com o uso do pênis. Ele vem sob a forma da dominação sexual ao subjugar o outro. Mais especificamente, a mulher. É a ideia de que se tem propriedade sobre o corpo feminino. E por isso pode violentar, pode opinar, pode comandar, pode conduzir.
E vai além. Esses comportamentos são manifestados de diversas formas: os fiu-fius da rua, as piadas sexistas, as ameaças, o abuso psicológico, as propagandas preconceituosas, as músicas machistas, a objetificação do corpo feminino, o assédio moral ou sexual, a erotização infantil, o estupro e o feminicídio. Enquanto existir essa cultura do estupro, as mulheres viverão em permanente ameaça.
São diversas as problematizações sobre esse tipo de opressão e quanto mais próxima a relação for com o agressor, mais difícil de percebê-las. Quem nunca passou a mão na cabeça do irmão homem sob o argumento de "no fundo ele é um cara legal"? Ou aquele parceiro de mesa do bar que conta vantagem de "quantas pegou"? Qual a mulher não ouviu ~conselhos~ para trocar de roupa? Ou beber menos? Ou não frequentar determinados lugares?
A coisa complica ainda mais quando os agressores são os ~caras legais~, ~desconstruidões~ e ~feministos~. O quão mais distante ele for do estereótipo do "monstro", mais será exigido da autocrítica.
Por isso, quando as pessoas não conseguem acreditar que o acusado foi capaz de cometer a violência, a atenção é voltada para quem o acusa. E quando o agressor é um famoso, então, é ainda mais difícil de lidar. É óbvio pensar que o motivo de as celebridades se safarem de penalizações se deve ao fato de terem muito dinheiro. Mas pouco se discute sobre as consequências e as representações culturais dessas ações.
Um agressor de Hollywood não é menos violento que o da Rocinha. Mas a mulher da Rocinha é, sim, mais vulnerável que a atriz do Oscar. Isso, contudo, não protege as mulheres famosas. Pelo simples fato de serem mulheres, elas são vítimas possíveis. E isso porque a cultura das celebridades é calcada em aplaudir e proteger, além de silenciar quem ameaça, principalmente, os homens famosos.
Se mulheres que têm suas vidas expostas passam por crises, as manchetes e o público não perdoam. Até hoje, Britney Spears tenta recuperar sua imagem, por exemplo. Mas Chris Brown, em contrapartida, segue sendo cultuado e premiado.
Esta lista traz uma pequena amostragem de 20 homens que são adorados por muitos fãs e bastante criticados por outros. Mas o que é inegável é que em comum a todos há um passado (e presente) permeado por violência contra mulheres e posicionamentos que reforçam a cultura do estupro.
Mas eles não vão nos calar:
MC Biel
O cantor foi acusado de assédio por uma jornalista do portal iG. De acordo com o relato, ele chamou a jornalista de “gostosinha” e disse que “a quebraria no meio” se mantivessem relações sexuais.
Dado Dolabella
O ator bateu na ex-namorada Luana Piovani quando estavam no final do relacionamento, em 2008. Os dois se desentenderam em uma boate, e o ator a agrediu com tapas e empurrões. Dolabella chegou a ser indiciado por Piovani na Justiça por conta da agressão. Esse não é o seu primeiro registro, contudo. Ele responde a outro processo de violência contra outra ex-parceira. No final de 2015, o ator usou o seu perfil no Facebook para desabafar: "Não houve essa agressão toda que dizem. Segundo, não me arrependo de nada que fiz. Nada é por acaso."
Danilo Gentili
Em 2015, o tema da redação do Enem tratava da perpetuação da violência contra a mulher. Após a prova, o debate ganhou as redes sociais e a opinião pública. Foi nesse período que o apresentador Danilo Gentili trouxe, para o seu programa de auditório, o suposto humorista Léo Lins. O convidado usou grande parte do seu tempo para destilar piadas machistas e transfóbicas. No Facebook, o vídeo da participação foi criticado por diversos usuários. "Fazer piada com mulheres que são agredidas todos os dias? Que feio Danilo. Eu era sua fã. Mas essa falta de respeito foi de lamentar." E o apresentador respondeu: "Mas você jura por tudo que deixou mesmo de ser minha fã? Eu posso até depositar uma grana pra você me enviar um contrato que não é mais minha fã. É importante pra mim saber que não tenho fã arrombada".
Lobão
O cantor é conhecido por seus posicionamentos polêmicos. O último deles, no entanto, foi uma declaração que culpabiliza a vítima do estupro. Sobre o caso ocorrido no Rio de Janeiro, ele argumentou: "O País é uma fábrica de mini-putas."
Alexandre Frota
Em 22 de maio de 2014, Frota foi o convidado de Rafinha Bastos no programa Agora É Tarde, da Band. Durante a sua participação, Frota conta que praticou sexo com uma mãe de santo contra a sua vontade e que ela havia desmaiado durante o estupro. Ele narrou os detalhes do crime, que foi recebido com tom de piada pelo público e pelo apresentador: "Eu fiquei olhando e falei: 'meu irmão, essa mãe de santo tem um jogo, dá pra pegar, dá pra comer', morô?”.
Rafinha Bastos
Em 2011 o humorista foi condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) porque, durante a transmissão ao vivo do programa CQC, Bastos afirmou que “comeria Wanessa e o bebê”. O comentário se deu após o apresentador Marcelo Tas elogiar a beleza da cantora, que estava grávida. Depois disso, o ator perdeu o posto no programa e acabou pedindo demissão.
Bill Cosby
O comediante Bill Cosby é acusado de ter drogado e estuprado uma ex-funcionária da Universidade de Temple. Mas ela não é a única. Depois que o caso veio a público, mais de 50 mulheres se pronunciaram e afirmaram terem sido vítimas de Cosby. As mulheres que acusam o humorista posaram para uma capa da revista New York Magazine.
Arnold Schwarznegger
O ator e ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger foi acusado de abusar sexualmente de, pelo menos, seis mulheres, entre elas a atriz Rhonda Miller. Segundo o depoimento das vítimas, o ator teria assediado verbalmente e fisicamente, além de ter tentado tirar as suas roupas.
Woody Allen
O premiado cineasta tem relacionamentos, no mínimo, problemáticos. Ele é casado com Soon-Yi, a filha adotiva de Mia Farrow, sua ex-mulher. Outra filha de Farrow, Dylan, acusa Allen de pedofilia. Segundo ela, quando ela 7 anos de idade, o cineasta tocava suas partes íntimas e a obrigava a fazer coisas contra sua vontade.
Charlie Sheen
O ator é acusado de atacar uma enfermeira de uma consulta odontológica. De acordo com o site TMZ, ele teria tentado apalpar os seios da profissional. Quando o dentista interveio, Sheen o ameaçou com uma faca.
Sean Kingston
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