Pelo menos sete ex-ministros da presidente afastada Dilma Rousseff (PT) são candidatos a cargos no Executivo pelo Brasil nestas eleições. Em comum entre eles, sejam do Partido dos Trabalhadores ou não, existe a estratégia de mostrar desvinculação com os antigos ocupantes do governo federal ou de "esconder" a petista.
Um exemplo disso pode ser visto na disputa para a Prefeitura de São Paulo, a maior cidade do país. Vice-líder nas pesquisas, a senadora Marta Suplicy (PMDB-SP) foi ministra da Cultura de Dilma entre setembro de 2012 e novembro de 2014. A saída do ministério também marcou a saída do PT, partido pelo qual militou desde a fundação, em 1981.
"Eu erro e acerto como qualquer pessoa, mas tenho humildade pra aprender", diz a senadora em sua propaganda eleitoral. A candidata faz também questão de ser identificada exclusivamente como Marta, abrindo mão do Suplicy que herdou do ex-marido, o ex-senador e hoje candidato a vereador Eduardo Suplicy (PT).
Procurada pelo UOL para explicar as razões para a desvinculação na campanha, a assessoria de Marta Suplicy não respondeu às indagações.
Se Marta procura se desculpar pelo seu passado petista sempre que possível, o prefeitoFernando Haddad vem lidando com os próprios problemas quando o assunto é o PT e Dilma. Criticado dentro do partido por dizer que "golpe era uma palavra muito pesada" para definir o afastamento da presidente, ele também foi alvo por "esconder" a tradicional estrela da sigla.
"A estrela e a cor vermelha raramente aparecem não só na campanha do Haddad, mas também nas campanhas de vereadores do PT, nas quais você hoje vê outras cores, como azul ou amarelo. O número 13 não dá para suprimir, mas é raro ver a estrela ou a imagem das lideranças do partido, assim como a da própria Dilma", disse ao UOL o cientista político Marco Antônio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Coordenador da campanha de Fernando Haddad, o vereador Paulo Fiorilo informou que Dilma está disposta a percorrer o país e que está em discussão na coordenação da campanha de Haddad a possibilidade da petista participar mais ativamente. Fiorilo acredita que Dilma pode sim agregar na corrida pela reeleição de Haddad.
Já a ausência com maior destaque da tradicional estrela do PT e a pouca presença da cor vermelha no material, Fiorilo nega que seja uma rejeição. "Se você pegar o material você vai ver a estrela sim. No meu caso, eu usei a cor amarela na última eleição para vereador, por uma opção pessoal. Ter um fundo amarelo [em algumas peças] tem mais a ver com o impacto, é melhor do que o branco", disse.
Críticos
Ex-ministro da Pesca de Dilma entre fevereiro de 2012 e março de 2014, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) lidera a disputa para a Prefeitura do Rio de Janeiro. No recente debate promovido pela Rede Bandeirantes, exaltou o trabalho que fez à frente da pasta.
"Não há nada contra mim", sentenciou sobre o seu período como ministro, embora a Controladoria-Geral da União (CGU) tenha apontado desvios de recursos durante a sua gestão. Quanto ao impeachment de Dilma, se disse "constrangido", mas votou a favor da abertura do processo no Senado e ausentou-se da votação que cassou o mandato da presidente.
A assessoria de Marcelo Crivella prometeu enviar as respostas, o que não aconteceu até a publicação desta matéria.
Sem constrangimento algum, o deputado federal Edinho Araújo (PMDB-SP) votou pela abertura do processo de cassação de Dilma na Câmara dos Deputados, e espera que isso possa ajudá-lo na disputa pela Prefeitura de São José do Rio Preto, no interior paulista. Ele também não esteve na votação de cassação de Dilma. "Não podemos mais suportar a convivência com a inflação alta, corrupção e desemprego", escreveu ele em março. Araújo foi ministro-chefe da Secretaria Nacional de Portos do Brasil entre janeiro e outubro de 2015.
Como contraponto, a assessoria de imprensa de Araújo disse que o ex-ministro de Dilma não se esqueceu do seu vínculo com o governo. "O deputado tem dito em seus programas que foi ministro dos Portos e até já apresentou o desempenho do setor portuário no ano passado em programas de TV e rádio", destacou, em nota enviada ao UOL.
"Esse é o discurso pronto de quem participou dos governos Dilma e não é do PT. A Marta vai seguindo por esse caminho também. Faz parte da 'carona' que esses candidatos estão pegando na rejeição ao governo dela. No caso da Marta, porém, é mais difícil do que no do Edinho Araújo, já que ela tem um passado muito atrelado ao PT", avaliou Teixeira.
Para o cientista político, "rejeição" de ex-ministros não deveria ser vista com surpresa. "É preciso entender que tanto a figura de Dilma quanto a do partido não somam. Esses candidatos não querem pagar o preço de tudo o que está acontecendo com o PT e com a Dilma. Todos avaliam os custos de se carregar esses vínculos diretos, é natural que se busque evitá-los a todo custo", emendou.
Do outro lado, Teixeira afirmar que se houvesse a presença da Dilma nessas últimas manifestações de rua, caso ela tivesse participado. "Isso poderia representar uma ajuda e não um problema [para a campanha]. Se ela participasse, teria um potencial positivo para a campanha [de Haddad]".
Sobrevivência
O passado e o presente petista também influenciam as campanhas dos ex-ministros Edinho Silva e Pepe Vargas, que pleiteiam as prefeituras de Araraquara (SP) e Caxias do Sul (RS), respectivamente. Ambos procuram nestas eleições um caminho para a própria sobrevivência política, bastante vinculada com Dilma.
Silva foi ministro-chefe da Secom (Secretaria de Comunicação Social) da Presidência da República entre março de 2015 e maio de 2016, quando do afastamento de Dilma. Ele lidera a disputa em Araraquara , onde foi prefeito por duas oportunidades.
Na sua campanha, é possível encontrar menções ao ex-presidente Lula (em um dos vídeos, o grande nome do PT atribuiu a Silva a responsabilidade por "organizar o PT no interior de São Paulo"), porém as menções a Dilma são quase inexistentes.
A assessoria do candidato de Araraquara disse que "O PT assina rigorosamente todos os programas de TV e rádio. A presidenta Dilma e o ex-presidente Lula estão presentes nos vídeos da convenção partidária que lançaram a candidatura e também no vídeo de lançamento da campanha eleitoral. Edinho é candidato de uma coligação, "O melhor para Araraquara", composta não só pelo PT, mas também pelo PP, PR e PCdoB - a campanha respeita essa aliança e trata de forma igualitária todos os partidos que a integram a coligação".
A ausência de símbolos do PT também atinge a campanha de Pepe Vargas, que fez a sua última menção à presidente afastada no dia 5 de agosto, deixando de lado qualquer indicação posterior.
O responsável pelos programas de rádio e televisão de Pepe Vargas, Gerson Luís Ben, afirma que, em todas as peças do candidato, há "utilização da trajetória de Pepe como ministro do governo de Dilma". "Obviamente que fazemos a vinculação deste trabalho, também como deputado federal, com suas consequências para a vida da cidade de Caxias do Sul, haja vista que a disputa eleitoral é para a prefeitura", explicou ao UOL, por e-mail.
Gerson diz que há sim interesse de Vargas em associá-lo à imagem de Dilma, já que o candidato adversário Edson Nespolo (PDT) – que é apoiado pelo atual prefeito da cidade, Alceu Barbosa Velho (PDT) – vem usando as "obras que contaram com financiamentos e/ou recursos do Orçamento Geral da União". "É de nosso interesse resgatar estas informações. Em momento oportuno e de acordo com nossa estratégia, iremos reforçar isto", completou.
No Estado do Rio de Janeiro, o ex-ministro do Trabalho e ex-deputado federal Brizola Neto(PDT-RJ) prefere exaltar o apoio que recebeu de Ciro Gomes para se eleger prefeito de São Gonçalo, na Baixada Fluminense, a fazer qualquer menção à petista. Por outro lado, ele não esquece do período em que compôs o governo Dilma, entre maio de 2012 e março de 2013.
"Como ministro do trabalho, sempre defendi a legislação trabalhista, a modernização e desburocratização, sem precarizar as leis trabalhistas", escreveu ele no último dia 24 , em tom crítico ao governo interino de Michel Temer (PMDB). A coordenação de campanha de Brizola Neto não comentou o assunto.
Dilma e os aliados
Enquanto a campanha desses candidatos começa sem Dilma. Assessores da ex-presidente, como o ex-ministro do Trabalho e Previdência Social Miguel Rossetto, afirmam que ela poderá participar ativamente de campanhas e gravar participações em programas, mas ainda não há uma agenda definida.

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